Dois segundos
October 9, 2007
Felizmente não durou mais do que isso disso. Dois segundos. Mas por mim não irei renunciar, porque toda a verdade de um amor o tempo traz, nem que esse tempo sejam um breves e infinitos momentos.
Foi
Como tudo na vida que o tempo desfaz
Quando menos se quer
Uma desilusão assim
Faz a gente perder a féE ninguém é feliz, viu
Se o amor não lhe quer
Mas enfim
Como posso fingir e pensar em você
Como um caso qualquer
Se entre nós tudo terminou
E eu ainda não sei, mulher
E por mim não irei renunciar
Antes de ver o que não vi em seu olhar
Antes que a derradeira chama que ficou
Não queira mais queimar
Vai
Que toda a verdade de um amor
O tempo traz
Quem sabe um dia você volta para mim
Me amando ainda mais
“Ainda Mais”, de Eduardo Gudin e Paulinho da Viola
Notas sobre “Fados”, de Carlos Saura
October 6, 2007
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A presença de Rui Vieira Nery como consultor musicológico neste novo filme de Carlos Saura é perceptível no argumento (chamemos-lhe assim) de “Fados”. Com efeito, a tese de que o fado tem raízes simultaneamente portuguesas, africanas e brasileiras manifesta-se na escolha dos músicos que foram chamados a construir parte da geografia do fado, que, de acordo com esta visão, não se esgota no estereótipo clássico do cantor acompanhado apenas por viola e guitarra. Grande parte do sucesso de que os fadistas têm vindo a gozar nos últimos 8 ou 10 anos parte justamente deste pressuposto, e é por isso que a defesa desta teoria acerca das origens do fado ganha importância.
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Curiosamente, as participações brasileiras mais sonantes são o que menos encaixa nesta linha de raciocínio, uma vez que não vêm trazer nenhum input ao argumento. Caetano, porque aquela é uma interpretação eminentemente sua, e não “brasileira”; Chico, porque a alusão ao 25 de Abril pareceu-me forçada e, aqui sim, reveladora de que o filme é, em última instância, de um estrangeiro. Um português não liga o fado à revolução dos cravos. Sintomaticamente, o lundum interpretado pelo também brasileiro Toni Garrido dá algumas luzes sobre a forma como estes temas eram interpretados no Brasil dos inícios do século XX.

Para além da fotografia de muitos dos quadros e das coreagrafias que acompanharam grande parte dos cantores, o que no fundo justifica o filme é a música. Destaco sobretudo dois momentos: Marisa a cantar “Meu fado meu” (de Paulo de Carvalho) com Miguel Poveda (fado e flamenco nunca soaram tão bem juntos, nem com Amália nem com Pedro Jóia) e, sobretudo, a “Rua do Capelão”, cantada lindamente por Cuca Roseta com acompanhamento brilhante de Mário Pacheco na guitarra portuguesa. Profundamente belo. Tento agora saber mais desta total revelação. Estejamos atentos.
Pequena sugestão
October 4, 2007

No álbum Sensus, de 2003, Cristina Branco a cantar “O Meu Amor” de Chico Buarque, da Ópera do Malandro. Uma interpretação portuguesa de um cantora portuguesa de uma música brasileira. Interpretações quase brasileiras mas ainda não brasileiras de cantoras portuguesas de músicas brasileiras, faz menos sentido, na minha opinião. Justifica-se menos.
Não é este o caso. Sensus. O nome diz tudo.
O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai
Dancin’ Days
October 4, 2007
Envoltos pela rotina, pela efemeridade das prioridades, pela pressa de chegar e mal ficar. Por vezes esquece-se o mais importante, o que, por fim, fica.
We should be dancing, yeah…

“É de iô iô, É de ia ia
Capoeira de Angola jogada
Na beira do mar“
Não são precisas palavras para comunicar, só o balanço do corpo e o sorriso da cara. E o olhar. O resto entende quem pode.
O disco do meu ano
June 29, 2007

Não é o disco do ano, nem o meu disco do ano. É o disco do meu ano. Alegria esfuziante, tradição, mandinga, Bahia, felicidade, genuinidade, fundamento, tudo.
Alô, meu Santo Amaro
Eu vim lhe conhecer, eu vim lhe conhecer
Sambar santamarense, pra gente aprender,
pra gente aprender
Para quê?
June 29, 2007

Ontem à tarde apanhei um susto enquanto ouvia rádio. Era a adorável Teresa Salgueiro, pessoal e transmissível, a conversar com Carlos Vaz Marques sobre “Você e Eu”, o disco lançado há pouco com 22 temas brasileiros – com um reportório de temas compostos entre as décadas de 1930 e 1970.
O susto não surgiu de nada dito na conversa – aliás, pouco interessante. Veio quando a ouvi cantar, justamente, “Você e Eu”, de Carlinhos Lyra e Vinícius de Moraes. O tema é bossa nova pura, daquele período em que Vinícius trocou a parceria com Tom Jobim pelo trabalho com Carlos Lyra (que acabou por render pouco mais do que dois ou três clássicos), iniciando o delicioso swing que o levou, posteriormente, a Baden Powell e a Toquinho, entre outros parceiros menos marcantes. Acontece que Teresa Salgueiro canta bossa nova como se estivesse a cantar os sambas-canção dos anos 30 e 40, e passa por cima de tudo o que deveria ter aprendido com João Gilberto – de quem, aliás, disse ser admiradora. Aquele prolongamento de notas e, sobretudo, o irritante vibrato no fim das frases acabam com os esforços do Septeto de João Cristal, que, de um ponto de vista estilístico, acompanham correctamente a solista. Faz lembrar Elisete Cardoso a cantar “Outra Vez”, já com o acompanhamento de João Gilberto. Um para cada lado (“swinguisticamente” falando).
Para quê gravar um reportório destes?
Este lugar existe?
June 12, 2007
Este lugar não existe. Mas enquanto o procuramos vamos sonhando, utopicamente acreditando que o paraíso é uma realidade. Para já, só existe na voz de Marisa Monte.
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chãoPra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para láPor cima das casas, cal
Frutos em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for
Respeitem seus cabelos, brancos…
May 23, 2007

Por que você não vem morar comigo
Alimentar meu cão, meu ego
Cansei de ser assim, colega
Não sei mais ser só seu amigo
Eu quero agora ser o seu amado
Você me deixa a perigo
O amor me corta feito adaga
Mas vem você e afaga
Com afeto tão antigo
Você não leva a sério o que eu digo
E enche a taça que me embriaga
Me prega em cruz feito jesus de praga
Mas sempre me defende e compra minhas brigas
Não ligo
Se é amor ou amizade vaga
Dizem que o amor a amizade estraga
E esta a este tira-lhe o vigor
Não ligo
Se é caretice ou romantismo brega
Um dia em mim essa aflição sossega
More comigo e traga o seu amor
Adoro o jeito que você me pega
Me chama de meu nego, minha nega
E quando me abraça e eu me entrego
Vem você e diz cuidado com esse apego
Amigos falam que esse mico eu pago
Pois mudo logo quando você chega
E acende a luz, mas essa luz me cega
E abre em rosa a pedra que no peito eu trago
Letra de “Por Que Você Não Vem Morar Comigo?”, de Chico César.
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós…
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor ?
As manhãs e as manhãs
May 22, 2007

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei
E nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz
Excertos de “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira. Lindo, lindo, lindo… Cantado lindamente por Maria Bethânia, ilustrando o “Pantanal”. Juma e Juventino, a adolescência, a beleza selvagem. E, no fundo, a ideia de sempre. O muito pouco que sei. O ser feliz. Pulsar.